Fico vendo e
ouvindo nos noticiários as reportagens sobre o avanço de tecnologia e cada vez
mais me convenço que estou vivendo além do que deveria. Não quero ser mais uma
dessas milhões de pessoas que se tornaram escravas dos aplicativos e que têm
suas mentes controladas por um chip qualquer. Se dissesse que sou literalmente
contra este avanço eu seria um grande idiota. Estou aposentado, tenho setenta e
três anos e não sei se orgulhosamente ou teimosamente falando, não me deixei
dominar pelos dispositivos que teoricamente foram concebidos para facilitar a
vida das pessoas, mas pelo que parece, chegaram também para escravizar aqueles
que não sabem dimensionar o que é benéfico do que é vício. Já estão falando em
acabar com o dinheiro moeda ou papel e também com os cartões magnéticos e já
existem agências bancárias que não movimentam dinheiro em espécie. Será que
todo e qualquer dinheiro vai se tornar virtual? Os amantes
desta “modernidade” dizem que as pessoas movimentarão suas contas bancárias
através dos aparelhos de celular, dos óculos, do relógio, de uma pulseira e até
de um chip implantado em alguma parte do corpo. Segundo os especialistas da
área, em pouco tempo todas as pessoas, independentemente da sua condição
financeira ou social terão que se renderem aos aplicativos. O setor público
onde o atendimento sempre foi e será ruim com alguns funcionários se achando no
direito de maltratar as pessoas está sendo todo informatizado. Quase todos os
serviços já exigem agendamento via on-line e constantemente ouvimos dizer que
todos têm acesso à tecnologia. Acesso talvez, mas saber como acessar e ter em
casa um dispositivo para isso são coisas bem diferentes. Se isto acontecer milhares de
pessoas terão que pagar por esses serviços, porque sem medo de errar, posso
afirmar que de cada dez brasileiros oito não tem sequer acesso a um simples e
decente café da manhã. Com a
maioria das riquezas do país sendo roubadas por políticos sem escrúpulos e por
empresários gananciosos, se essas tecnologias se tornarem realidades todos os
brasileiros estarão aptos para se adaptarem e terão dinheiro para comprar essas
geringonças modernas? Elas ficam
ultrapassadas muito depressa e cada dia surge uma nova. Comece a
observar a periferia da sua cidade, o nosso país é uma favela de norte a sul, e
sem medo de errar posso afirmar que mais da metade da população mora em
cortiços fétidos e violentos. Nada
contra as favelas e as periferias porque nelas moram a grande maioria dos
brasileiros esquecidos e explorados pelos políticos corruptos, nelas residem os
moradores reféns dos bandidos e das milícias que lhes roubam a liberdade e a
esperança de uma vida melhor. De cada dez
aparelhos celulares que antes eram telefones que são vendidos, oito são adquiridos por pais ou avós extorquidos por
seus filhos e netos. Se tudo vai
ser informatizado! Para que
continuar pagando impostos se em pouco tempo não haverá mais funcionário
público para nos atender? Seremos
atendidos por uma inteligência artificial fria como a bia, não a mulher, mas a
geringonça robotizada.
Só para
exemplificar: Em um
acidente de trânsito sem vítimas a polícia não mais fará o boletim de ocorrência, nem na delegacia. Cada
um dos envolvidos terá que gerar seu boletim de dando a sua versão do sinistro. Se
o prejuízo financeiro for grande e não houver um consenso de quem está certo ou
errado os dois terão que agendar um dia e horário em dos tribunais de pequenas
causas que decidirá quem arcará com o prejuízo. Se um dos envolvidos for de
outro estado ou de uma cidade longe do local do sinistro, e se seu veículo não
tiver sofrido grandes avarias, com certeza ele voltará para seu domicílio. E então,
esta audiência também terá que ser on-line, e pelo que conhecemos da justiça
brasileira, alguém ficará no prejuízo. E com
certeza será o cidadão menos violento, pacato, e cumpridor dos seus deveres.
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