Estou sentado na recepção do asilo Divino Ferreira Braga, um asilo de
caridade aqui na minha cidade de Betim em Minas Gerais. São quinze horas de um
sábado ensolarado e mais um dia sem visitas para quebrar o silêncio que nos incomoda. Os treze degraus da escada e a
pequena passarela de cimento que leva até o portão parecem obstáculos
instransponíveis e o portão fechado mais parece o de uma prisão. Muitas pessoas
passam na rua e de vez em quando alguém acena para os moradores que ficam
horas segurando na grade da janela do seu quarto como se fossem prisioneiros da
velhice. Aqui a maioria dos moradores sofre de algum distúrbio psíquico e para
eles viver é apenas ficar olhando para o vazio, mas mesmo nas suas
insanidades, muitos sabem a hora certa das refeições e reclamam quando elas
atrasam. Infelizmente a maioria das pessoas olham para os idosos como algo que
já não serve mais e esquecem que se não quiserem ficar assim ou vir morar aqui
terão que morrer ainda jovens. Aqui dentro o silêncio é quebrado pelo som
de um rádio que a maioria finge escutar e pelas rusgas entre moradores por
qualquer motivo banal. O barulho da água do aquário parece um grito
contrastando com o silêncio dos peixes e dos moradores. Muitas vezes nem
os velórios são tão silenciosos e o ambiente me dá a impressão de que o
morador fica esperando a morte tomá-lo pela mão para tirá-lo da agonia da
indiferença. E assim, as horas vão passando e a tristeza parece entranhar nas
paredes da casa provocando gemidos de saudade. Os moradores do lar só olham
para frente porque tudo ficou para traz. Casa, filhos e filhas,
maridos e esposas, netos e netas, irmãos e irmãs e até os amigos e amigas são
apenas vagas lembranças. Por coincidência, o telefone tocou e o filho de uma
moradora ligou para saber se ela ainda estava viva para vir visita-la. Morando a apenas cem
quilômetros de distância ele não a vê há mais de quatro anos. E de fato, à
tarde ele veio visitá-la, e quando estava saindo eu lhe dei esse texto que
acabara de escrever para ele ler na sua viagem de volta, e pelo que sei até hoje ele não voltou para uma nova visita. No
entorno do asilo estão instaladas algumas igrejas e os fiéis fingem não ver o
asilo e acham que Deus os espera somente nas igrejas e nos templos. Os
ministros com suas vestes brancas nem sequer olham para o prédio que é a morada
do verdadeiro Cristo e não se lembram do que Ele disse: “Eu estive doente e me
visitastes”. A tarde vai caindo e os últimos raios do sol vão embora levando
junto a esperança de recebermos a tão esperada visita. A noite cai e é hora de
ir para a cama lutar contra o pensamento que teima em espantar o sono. Aqui os
dias parecem se repetir e as horas parecem eternas e nós fazemos o possível
para amenizar a nostalgia que se transforma em tristeza, mas muitas vezes nos
sentimos impotentes e tiramos da impotência os estímulos para amenizar a vida
de quem desaprendeu a arte de viver
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