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27 de jun. de 2017

UMA CARÍCIA DE DEUS

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DEUS MORA NO CORAÇÃO DOS QUE ACREDITAM

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Sábado de manhã, dia nublado e uma chuvinha fininha trazendo um friozinho com um convite para ficar em casa tomando um bom vinho, esperando um almoço bem quente. Como durante a semana não pude ir, reservei esta manhã para ficar no Lar Divino Ferreira Braga. Não sei porque esta mania de chamar asilo de lar, quando todos sabem que para ser um lar de verdade tem que ter carinho, discussão, batidas na porta do banheiro para pedir economia de água ou de energia, e que para ser completo tem que ter criança correndo de um lado para outro, choramingando, fazendo pirraça e provocando sorrisos. Aqui tem carinho e dedicação, mas falta alguém para chamar de pai e mãe, de filho e filha, de vô e vó, de tia e tio. Falta o abraço de um irmão de verdade. 
Na enfermaria, sete mulheres acamadas escondidas sobre o cobertor pareciam nem respirarem, doentes, na condição de abandonadas no lar e pelo lar (família) já não conseguem esboçar um sorriso. 
No corredor, olhando a chuva cair como uma carícia de Deus derramada sobre suas imagens e semelhanças, Graça, sem uma das pernas, coloca a língua para fora, fica falando os mesmos palavrões de todos os dias e provocando a Nativa. Nativa, com seu jeito ranzinza de não querer me cumprimentar, até que a insistência consegue tirar um sorriso bonito do rosto marcado pelo tempo. 
Em um canto, sentado em sua cadeira de rodas, Ari, sem uma das pernas e uns belos olhos azuis observa a todos com um sorriso, Espera ainda encontrar uma companheira que o ajude a carregar a cruz que está muito pesada. 
Andando de um lado para outro está a Marlene que adora sorvete e quase não conversa. 
Miguelita, a mãe que o filho ligou para saber se estava viva, atormentada pelo stress, não conversa e recebe o abraço com indiferença. 
Tião, calado, se aproxima para receber um abraço, e quando perguntado quem é o mais bonito do asilo, responde sem titubear: - Eu. 
Percorrendo os quartos conversei com o Sr. Agenor que conta com um sorriso que uma garota gostosa visitou a casa. 
Encontramos o Jonas, também sem as duas pernas, como sempre sentado à janela olhando para a rua, como se esperasse alguém observa o movimento. Com seus setenta anos, faz questão de lembrar como enfrentou com coragem a amputação das pernas. Ele me faz voltar ao passado quando, sempre bêbado, corria atrás da meninada.
Ocupando uma cama de casal, mãe e filha, ficando o dia inteiro juntas, Conceição, e Maria da Conceição que como um papagaio repete tudo que ouve.  Passam dias e noites deitadas, e é uma briga separa-las quando uma tem que ser levada ao médico. 
Tentando ser engraçado para os que ainda têm um pouco de lucidez, esqueci e nem notei a falta de alguns que provavelmente estão internados no hospital. São quarenta e cinco internos. Os outros dormiam, ou simplesmente fecharam os olhos como se estivessem se preparando para o silêncio derradeiro. No meio de estranhos. Porque para eles, famílias de verdade são apenas lembranças. 
Este é o mais puro relato de um dia dos moradores de um asilo que vive de caridade, e sofre o abandono generalizado dos parentes que nunca aparecem. Do poder público que não ampara a juventude para que o futuro não seja igual. Das comunidades cujas pessoas todos os domingos passam na frente do asilo para irem às igrejas de todos os credos, e ainda não descobriram que Cristo mora aqui. 
É uma pena, tirando alguns que já não são mais visitas, porque, estão constantemente presentes e se doando por inteiro. A grande maioria não quer entender que aqui mora o futuro de quase todos. Dos que ficaram sozinhos por um infortúnio, ou porque não souberam educarem os filhos, e dos que souberam, mas os filhos tiveram que escolher entre a tranquilidade e o asilo. 
Insistimos não entender e aceitar a velhice, muito embora, escolhemos envelhecer para não termos que enfrentar a morte ainda na juventude. Não sei se as coincidências ou os desígnios de Deus nos impulsionam. À tarde fui a uma reunião na Igreja São Francisco, a mensagem central foi chamar todos a evangelizar, e fiz as seguintes anotações.
Será que não há espinhos no coração do homem? 
Será que não somos espinhos na vida dos nossos filhos? 
Será que os filhos não estão sendo espinhos na vida dos pais? 
Será que não somos pedra de tropeço?
Quantas vezes somos pedras no nosso trabalho? 
Na nossa comunidade? 
Para o nosso vizinho? 
Dentro da nossa própria casa!
Muitas vezes somos espinhos, devemos fazer de tudo para ser os que acompanham a rosa. Devemos nos esforçarmos para sermos pedra de construção, e nunca de tropeço. Somos chamados a todo instante para sermos testemunhas do milagre da vida. E o milagre não acontece por acaso, é preciso interação do céu com a terra, do coração com o amor, da alma com o espírito, que é Deus nos falando em parábolas. 
Precisamos querermos entender. 

Um comentário:

  1. Boa noite Geraldo!
    Fiquei emocionada lendo seu texto.
    É muito triste ver filhos abandonarem seus pais dessa forma.
    É muito triste vê a situação dessas pessoas que trabalharam a vida toda, e o final é de abandono pelas próprias famílias e principalmente pelos governantes. O nosso dinheiro de impostos que os políticos passam a mão, deveria ser usado em prol dessas pessoas que foram colocadas em abrigos, e hoje estão abandonados. Aqui na minha cidade tem vários abrigos e a maioria está em péssimo estado. É a população que sempre esta ajudando, arrecadando roupas, medicamentos, alimentação e enviando pra lá. Até os dentistas estão ajudando, muitos pacientes estão sem dentaduras, outros precisa extrair resto de dentes. É muito triste a situação. Eu tenho vergonha dos governantes do meu País, eu tenho vergonha do que acontece com nós brasileiros. Que Deus nos proteja!
    Abraço!

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