19 de nov. de 2017

PRECONCEITO, CONTRA QUEM?


PUBLIQUEI ESSE TEXTO EM 2005 NO USINA DE LETRAS.                

Cortadores de cana, ou Escravos?

Trabalhadores ou Escravos?









Tive que tomar emprestado algumas frases do texto Escravos do Nosso Tempo para mostrar que o preconceito que insistimos dizer não existir está enraizado em todas as camadas da sociedade brasileira; mas não é somente contra os negros, e sim contra os pobres. Constantemente ouvimos notícias de espancamento e assassinato de pessoas negras, pobres. Algumas vezes também vemos e ouvimos atitudes racistas contra pessoas ricas e importantes. Mas em geral o preconceito generalizado se dá contra os pobres e miseráveis. Porque todos eles sofrem na carne e na alma o abandono dos governantes, das elites, dos vizinhos, e dos amigos que só aparecem na hora da desgraça, esquecendo que o dia a dia de quem é marginalizado é mais agonizante que um câncer. O mais doloroso é existir o preconceito de pobre contra pobre, de pobres que gostam de bajular pessoas ricas, patrões, e principalmente de bajular os políticos a troco de qualquer coisa.
Preciso falar dos cem anos da abolição, mas por mais que procure não consigo entender o que foi abolido. Será que querem que eu fale sobre a libertação dos negros? Eu poderia conversar com algum preto velho que viveu, ou ouviu seus pais e avós falarem sobre a degradação à qual foram submetidos nas garras dos senhores de engenho. Poderia abrir um livro que me mostraria em detalhes os sofrimentos desses nossos irmãos nas garras dos que se julgavam donos da terra e senhores da vida.
Isto seria muito fácil! Não tenho nenhuma formação acadêmica. Mas... Nunca acreditei que somente os negros foram escravos. Sei que pessoas foram arrancadas de suas pátrias e escravizadas, simplesmente porque eram pobres e viviam na miséria. Se fossem brancas, mestiças ou amarelas, teriam vindo do mesmo jeito. Não foram escravizadas pela cor, e sim pela condição degradante que os seus governantes lhes impunham. E que, infelizmente, até hoje pouca coisa mudou. Como foram os negros os escravos que vieram construir nosso país, até hoje muitos idiotas cultuam preconceitos contra esta raça que muito nos ensinou, e que escreveu com o próprio sangue o seu nome nas páginas da nossa história. Conversei com um preto assalariado, pai de muitos filhos que mora em um barraco de favela, e continua mais escravo do que os negros amarrados no pelourinho. A diferença é que ao lado dele moram muitos brancos, também escravos do sistema. Não abri nenhum livro, abri o jornal e li em detalhes o que todos os escravos estão sofrendo nas garras de um governo “capitão do mato” e de uma sociedade comprometida apenas com o lucro e o poder. É por isso que cada vez mais me convenço que, salvo, infelizmente muitas exceções, no nosso país não existe preconceito de raça.
O nosso maior e vergonhoso preconceito é contra os pobres.
Cem anos de abolição!
A senzala era um galpão grande e sujo, com portas trancadas e constantemente vigiadas. O barraco da favela é pequeno e sujo, suas portas não são trancadas porque não é possível fugir da miséria, onde constantemente é assaltado pelos marginais, ou pela polícia. Nas senzalas a ração era ruim, mas raramente faltava. Hoje as panelas estão vazias, e as pessoas passando fome. O alimento é farto, mas o maldito salário mínimo não permite que as pessoas se alimentem. O que se perde e o que se joga fora todos os dias é uma afronta a Deus, e a todos nós que assistimos calados como se fosse tudo muito natural. 
Nos raros momentos de folga, os negros cantavam a saudade dos parentes e da sua terra. Agora não existe motivo para cantar. As pessoas não foram arrancadas de seus lares, mas a maioria tornou-se escrava na sua própria casa, e dos seus próprios “irmãos”. 
Os escravos morriam porque a medicina era privilégio dos dominadores. 
Estamos vivendo uma nova forma de escravidão. Os privilégios continuam. Os pobres morrem sem assistência médica porque o progresso fez a medicina evoluir somente para os que podem pagar. Os escravos precisam dormirem nas filas, mendigarem uma consulta e esperarem meses para fazer um exame ou simplesmente para consultar com um “especialista”. 
Antes da abolição as crianças eram “livres” no ventre. Hoje, milhares são abortadas, e outras tantas perambulam livremente pelas ruas porque não possuem sequer uma senzala para acomodar seus corpinhos cansados.
Seria tão barato construir uma.
Duas...
Três...
Ou mais. 
O negro velho era livre depois dos sessenta anos. Agora, idosos de todas as raças e de todos os credos estão abandonados nas ruas, ou jogados em asilos, condenados a serem para sempre os escravos da solidão. 
Quantos conseguirão trabalhar até os sessenta e cinco anos, para se aposentarem com um mísero salário mínimo?
No quilombo dos Palmares o líder Zumbi deu a própria vida para acolher e defender seus irmãos. Agora os escravos do sistema andam sem rumo como verdadeiros zumbis. 
Os nossos “líderes”, na sua grande maioria, defendem apenas seus interesses para não perderam os altos salários, e lutam somente para se manterem no poder e subjugar os escravos que os sustentam.
Cem anos da Lei Áurea. Que tinha tudo para brilhar. Cem anos que a palavra “escravo” deixou de ser privilégio dos negros, e passou a pertencer a todos que são marginalizados e explorados por empresários e políticos ladrões, acobertados por uma sociedade elitista e perversa.
Realmente os negros têm muitos motivos para comemorar nesta data, a partir da abolição igualaram-se a todas as raças. Os negros ricos continuaram livres, e os pobres continuaram escravos como a maioria dos miseráveis de qualquer lugar do mundo.
É claro que esta data é motivo de comemoração. Mas deveria ser além de tudo, motivo para uma reflexão mais profunda sobre da degradação da vida na terra, para buscarmos novos rumos para os esccravos da modernidade.

5 comentários:

  1. Geraldo,

    Quanta verdade!

    Como tenho formação académica superior em História, sempre soube k a escravatura não foi só feita a negros, pretos, como gostam eles que lhe chamemos, mas a gente pobre, mto pobre, também.

    Excelente e inteligente a comparação, que você estabelece entre os negros e os pobres, que vivem num barraco, sem as mínimas condições. E porquê tanto filho? Enfim, provavelmente, será o único consolo e prazer que têm.

    Esse país tem de mudar e não pense que muda a bem, pke até 2018, Temer estará no poder. É preciso revolucionar TUDO, sobretudo mentalidades e isso não se faz sem sangue.

    Beijos para seu adorado netinho e para todos aí de casa.

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  2. Boa tarde, Geraldo!

    Grata pelo seu comentário, que me fez rir.

    Ainda bem que fica meio esquisito (rs), qdo lê o que escrevo. Isso mostra, que tudo em você, e sobretudo no plano das sensações, está vivo e atuante. Vigie a próstata!

    O Bernardo ainda não tem um ano, creio eu, mas se já começou dando os primeiros passos, fico feliz. Para os nenés, é uma sensação ótima, mas que não nos conseguem transmitir, pke só dizem monossílabos ou palavras pequenas como mamãe, papai, vovô, vovó, etc.

    Um beijinho bem especial para ele e para todos vocês, também.

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  3. Olá, estimado Geraldo!

    Passando para ver se haveria novo post, saber de você e lhe desejar um santo natal e um ano excelente.

    Beijos para todos vocês e mtos, em especial, para o Bernardo.

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  4. Muito bom texto amigo. No Brasil o preconceito é social e arrebenta com todos os pobres e periféricos.engraçado como este crime continua fazendo vítimas pela país, onde o dinheiro ainda faz as leis.Eu sonho com um Brasil mais justo e que as leis funcionem indiscriminadamente.
    Abraços

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  5. MUITAS VERDADES EXARADAS NO SEU FORMIDÁVEL TEXTO.

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