19 de out. de 2010

DAR ESMOLA É FÁCIL.







Andar de ônibus às vezes nos reserva algumas surpresas agradáveis, e sempre acontece algo inusitado. Hoje, como sempre, sem nenhum respeito à lei da física, dois corpos ocupando o mesmo espaço superlotavam o coletivo que nos levava de volta para casa, para a escola, depois de mais um dia de estudos e de trabalho.
Um cidadão comum vestido humildemente distribuiu alguns lembretes, e logo em seguida pediu a atenção de todos. Fez o discurso já conhecido por muitos: Senhores e senhoras, gostaria de pedir licença para tomar o tempo de vocês, mas, é que estou desempregado e peço ajuda de todos porque não suporto ver minhas duas filhinhas com fome. Aceito qualquer quantia, até um centavo, vale transporte, tíquete refeição, um pacote de biscoito, o que vocês quiserem me dar.
Mãos mecânicas começaram a mexer nos bolsos e em bolsas, e em menos de cinco minutos ele arrecadou no mínimo uns oito reais.
Se esse cidadão repetir a façanha cinco vezes por hora, conseguirá abocanhar a quantia de quarenta reais, que multiplicando por oito horas que é a jornada de trabalho, o seu ganho no dia será de trezentos e vinte (320,00) reais Desta maneira, trabalhando de segunda a sexta, esse “trabalhador” conseguirá a quantia de oito mil e quatrocentos (8.400,00) por mês.
Quantas pessoas com curso superior conseguem ter um salário desses?
O salário mínimo atual é de quatrocentos e quinze (415,00) reais E tem gente dando esmola achando que faz caridade.
“-Não me interessa o que ele vai fazer com o dinheiro, isto é problema dele com Deus”, é o que dizem as pessoas que se acham verdadeiros poços de caridade.
O pobre de verdade, aquele que passa fome, muitas vezes não sabe nem conversar, e tem vergonha de pedir. Quantas vezes o trabalhador assalariado chegou em casa, e o gás tinha acabado, ou uma receita estava amarelando no armário sem o dinheiro para comprar o remédio?
Enfiar a mão no bolso e tirar uma moeda ou um vale transporte, entregando sem ao menos olhar na cara do pedinte é muito fácil, e sem dúvida, um mecanismo poderoso para alimentar a indústria da mendicância. Muitas creches estão jogadas às traças. Muitas crianças abandonadas pelos pais sofrem também o abandono do poder público e da sociedade. Muitas instituições sérias sofrem para cuidar de pessoas realmente necessitadas.
E poucos doadores se dão ao trabalho de fazerem uma visita a um asilo para ver de perto onde e como sua doação está sendo utilizada.
Dar esmola é muito fácil.
Fazer caridade implica em comprometimento.


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