Escrevi este texto em Março de 2006. Alguma coisa mudou?
Todo dia vinte de novembro é comemorado o Dia da
Consciência Negra e sinceramente não sei o que isso significa. Será que é olhar
para a própria pele e sair gritando pelas ruas: Eu sou preto? Ou olhar para
dentro de si mesmo e dizer para todo mundo ouvir: Eu sou diferente dos outros
apenas na cor da minha pele.
Por que não criam o dia da consciência branca? Seria até cômico
ver muitas pessoas idiotas que se acham da raça “superior” saírem pelas ruas
gritando: Eu sou um branquelo! Façam-me o favor! Na minha modesta opinião,
criar este feriado nada mais foi do que oficializar o racismo e a segregação
racial e Infelizmente muitas pessoas violentas e sem princípios se veem no
direito de agredir os nossos irmãos e irmãs negras. Na minha opinião,
mesmo sendo um analfabeto, não foram somente os negros, e a até hoje não são,
os únicos escravizados. Escravos foram e ainda continuam sendo as pessoas
pobres, independentemente da sua raça ou da cor da sua pele. Outro dia vendo e
ouvindo o noticiário, fiquei indignado e desliguei o televisor. Isso foi logo
depois de ouvir que os nossos “valorosos” deputados federais deram mais uma
demonstração de insensatez e despreparo ao aprovarem a lei de cotas nas
universidades públicas onde metade das vagas serão reservadas para os Negros,
Pardos, Índios e alunos do ensino médio que estudaram em escolas públicas. Ao
criarem mais essa lei idiota eles acham que estão sendo justos com os
menos favorecidos. Esses cidadãos que ficam inventando nomes e datas
dizendo que é para comemorar alguma coisa não têm mais o que fazer? Será que
eles não sabem que qualquer benefício do poder público para o povo deveria
levar em conta a situação socioeconômica da família? Não importando se forem
negros, brancos, albinos, mulatos, índios, ou de qualquer outra etnia? Quando
criaram essa cota, milhares de branquelos passaram a jurar que eram negros e
filhos, ou netos de afrodescendentes. Por que não criam o dia da consciência
honesta para que todos possam sair às ruas e praças gritando bem alto: Eu sou
honesto.
Aí eu queria escutar quantos gritos se ouviria por
esse imenso país afora, e tenho certeza que em muitas ruas, bairros, e
cidades inteiras o silêncio reinará absoluto. Eu queria uma nova lei áurea. Uma
nova abolição que libertasse os verdadeiramente pobres de todas as raças e
cores, do jugo dos políticos sacanas que ditam leis também sacanas que roubam
os sonhos das pessoas. O nosso país só ficará livre de todos os
preconceitos quando a justiça deixar de ser cega para os crimes cometidos por
pessoas ricas e poderosas, e punir com rigor quem agredir outras por causa da
cor da sua pele, da sua pobreza ou da sua crença. Poderiam criar também o
dia da consciência de justiça para que todos os injustiçados pudessem sair às
ruas e praças gritando bem alto: Queremos igualdade independentemente da cor da
nossa pele, do nosso cabelo crespo ou liso, dos olhos arregalados ou
puxadinhos, ou da fé que professamos. Queremos escola, lazer e saúde de
qualidade para nossos filhos, sejam eles um negrinho ou um branquelo azedo. Não
queremos cota nas universidades, exigimos o mesmo tratamento para disputarmos
de igual para igual com todos que se formam doutores nesse país das
desigualdades. Nos indignamos com o estacionamento das universidades públicas
com seus carrões afrontando o aluno pobre que sequer teve acesso a uma escola
pública de qualidade. Ao criarem essas malditas cotas os políticos abriram
brechas para todo tipo de falmacutaia. Por exemplo: o ENEM foi criado para
avaliar o ensino das escolas públicas, mas assim que o seu resultado passou
a ser item de avaliação para se entrar em uma universidade rapidamente foi
estendido às escolas particulares abrindo espaço para a criação de cursos
preparatórios para atender e preparar os filhos preguiçosos da elite. Ao
criarem estas cotas, os ricos passaram a matricular seus filhos em escolas
públicas de manhã e em escolas privadas à tarde, ou vice e versa. E as vagas
nas universidades públicas que teoricamente seriam dos pobres, com certeza
continuaram e continuam sendo ocupadas pelos filhos da elite. É preciso abrir
as portas do que é público para dar acesso somente aos mais necessitados.
"Se um dia o grito da consciência de justiça
acontecer todos os outros poderão ser esquecidos" nos foi dito pelo ator
norte americano MORGAN FREEMAN