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19 novembro, 2017

PRECONCEITO, CONTRA QUEM?

Escrevi este texto em agosto de 2005, fiz allgumas correções e parece que foi hoje

Trabalhadores ou Escravos?

Eu não tenho nenhuma formação acadêmica, mas nunca acreditei que somente os negros foram os escravizados. Sei que pessoas foram arrancadas de suas pátrias e escravizadas simplesmente porque eram pobres e viviam na miséria. Se fossem brancas, mestiças, ou amarelas teriam vindo do mesmo jeito. Elas não foram escravizadas somente pela cor da pele, e sim pela condição degradante de extrema pobreza que seus governantes lhes impunham. E que, infelizmente, até hoje quase nada mudou.  Eu sobrevivi a uma ditadura perversa que quase voltou quando ficamos quatro anos sem governo, e que foi definitivamente descartada com o resultado da última eleição.  Mas como em se tratando de Brasil, as sacanagens contra pessoas negras e contra as pessoas pobres só tendem sempre a aumentar, A senzala era um galpão grande e sujo com portas trancadas e constantemente vigiadas. O barraco da favela é pequeno e suas portas não são trancadas porque não é possível fugir da miséria, e ele  é constantemente assaltado pelos marginais ou pela polícia. Nas senzalas a ração era ruim, mas raramente faltava. Hoje as panelas estão vazias e as pessoas passando fome. Agora o alimento é farto, mas a extrema pobreza não permite que milhares de pessoas se alimentem dignamente. O que se perde e o que se joga fora todos os dias é uma afronta a Deus e a todos nós que assistimos calados como se fosse tudo muito natural. 
Nos raros momentos de folga os negros cantavam a saudade dos parentes e da sua terra.
Agora não existe mais motivo para cantar. Muitas pessoas foram e ainda são arrancadas de seus lares, e outras tantas tornaram-se escravas na sua própria casa, e dos seus próprios “irmãos”. Os escravos morriam acometidos por alguma doença porque a medicina era privilégio dos dominadores. Apesar do SUS ter sido criado para atender os mais pobres as pessoas ricas são as que mais utilizam os seus serviços. Estamos vivendo uma nova forma de escravidão onde os privilégios continuam. Muitos pobres continuam morrendo sem assistência médica porque o progresso fez a medicina evoluir somente para os que podem pagar, e os escravos precisam dormir nas filas mendigando uma consulta e esperar meses para fazer um exame ou simplesmente para consultar com um “especialista”.  Com a abolição as crianças ficaram  “livres” ainda no ventre das mães. Hoje, milhares são abortadas e outras tantas estão esmolando ou vendendo alguma coisa nos semáforos. O negro velho era livre depois dos sessenta anos.
E hoje? Quantas pessoas conseguirão trabalhar ou terão um emprego estável até os sessenta e cinco anos para se aposentarem com um mísero salário-mínimo? Agora, idosos de todas as raças e de todos os credos estão abandonados nas ruas ou jogados em asilos condenados a serem para sempre os escravos da solidão.  No quilombo dos Palmares o líder Zumbi deu a sua própria vida para acolher e defender seus irmãos e agora os escravos do sistema andam sem rumo como verdadeiros zumbis. Os nossos “líderes”, na sua grande maioria, defendem apenas seus interesses e lutam somente para se manterem no poder e subjugar os escravos que os sustentam. Este preconceito hediondo é também contra as pessoas pobres de todas as raças, que junto com os negros e negras sofrem na carne e na alma o abandono das elites que não querem entender que todos somos imagens e semelhança de Deus. Ultimamente está ficando corriqueiro ouvirmos notícias de espancamento e assassinato de pessoas pobres brancas e negras. E infelizmente nos últimos anos aumentou muito os noticiários de racismo e preconceito contra pessoas negras ricas, e de celebridades que foram mortas por milicianos bandidos, ou por policiais, como a vereadora Marielli no Rio de Janeiro
“Comemoramos os Cem anos da Lei Áurea que tinha tudo para brilhar. Cem anos que a palavra “escravo” deixou de ser privilégio dos negros e negras e passou a pertencer a todos marginalizados e explorados por empresários e políticos ladrões acobertados por uma sociedade elitista e perversa. Realmente, os negros têm muitos motivos para comemorar nessa data porque foi a partir da abolição que todos se igualaram com as raças. Os negros ricos continuam ¨livres¨ e os pobres de todas as raças continuam escravos, como a maioria dos miseráveis de qualquer lugar do mundo.
É uma pena! Tínhamos tudo para viver em um país de primeiro mundo onde todos pudéssemos desfrutar das belezas naturais, mas a podridão da nossa política e da nossa justiça, com raríssimas exceções, impedem que isso se concretize. É urgente que lutemos com todas nossas forças para banirmos os preconceitos e acabarmos de vez com essa triste mancha que cobre nosso país.