18 junho, 2021

RACISMO, A MANCHA QUE COBRE O BRASIL


Este texto foi escrito em 2005. Mas como em se tratando de brasil as sacanagens contra pessoas negras e pobres tendem sempre a aumentar, resolvi fazer algumas correções e publicar novamente.

                           RACISMO,  A MANCHA QUE COBRE O BRASIL

Sobrevivi a uma ditadura perversa que estou vendo retornar com a ascensão do bolsonaro ao governo

 

Este texto foi escrito para falar sobre a abolição da escravidão no nosso país. E para falar sobre isso precisamos ter coragem de lutar contra o preconceito que insistimos dizer não existir e que está enraizado em todas as camadas da sociedade brasileira. Apesar de muitos branquelos idiotas cultuarem o preconceito contra pessoas negras, elas não são as únicas que sofrem no corpo e na alma esta agressão sórdida que machuca deixando marcas difíceis de cicatrizar.
Não tenho nenhuma formação acadêmica. Mas nunca acreditei que somente os negros foram escravos. Sei que pessoas foram arrancadas de suas pátrias e escravizadas simplesmente porque eram pobres e viviam na miséria. Se fossem brancas, mestiças, ou amarelas teriam vindo do mesmo jeito. Não foram escravizadas pela cor, e sim pela condição degradante de extrema pobreza que seus governantes lhes impunham. E que, infelizmente, até hoje pouca coisa mudou. 
Como foram os negros os escravos que vieram construir nosso país, até hoje muitos idiotas cultuam preconceitos contra esta raça que muito nos ensinou e que escreveu com o próprio sangue seu nome nas páginas da nossa história. Conversei com um senhor negro, assalariado, pai de muitos filhos que mora em um barraco de favela. Pude perceber que ele continua mais escravo do que os negros que eram amarrados no pelourinho. A diferença é que ao seu lado moram muitos brancos, também escravos do sistema. Não abri nenhum livro, abri o jornal e li em detalhes o que os escravos estão sofrendo nas garras de um governo “capitão do mato” e de uma sociedade comprometida apenas com o lucro e o poder. 
A senzala era um galpão grande e sujo com portas trancadas e constantemente vigiadas. O barraco da favela é pequeno e suas portas não são trancadas porque não é possível fugir da miséria, e é constantemente assaltado pelos marginais ou pela polícia. Nas senzalas a ração era ruim, mas raramente faltava. Hoje as panelas estão vazias e as pessoas passando fome. O alimento é farto, mas a extrema pobreza não permite que milhares de pessoas se alimentem. O que se perde e o que se joga fora todos os dias é uma afronta a Deus e a todos nós que assistimos calados como se fosse tudo muito natural. 
Nos raros momentos de folga os negros cantavam a saudade dos parentes e da sua terra. Agora não existe motivo para cantar. Muitas pessoas ainda são arrancadas de seus lares, e outras tantas tornaram-se escravas na sua própria casa, e dos seus próprios “irmãos”. 
Os escravos morriam porque a medicina era privilégio dos dominadores.
Isso também não mudou  
Estamos vivendo uma nova forma de escravidão.
Os privilégios continuam.
Os pobres morrem sem assistência médica porque o progresso fez a medicina evoluir somente para os que podem pagar. Os escravos precisam dormirem nas filas mendigando uma consulta. e esperando meses para fazer um exame ou simplesmente para consultar com um “especialista”. 
Antes da abolição as crianças eram “livres” no ventre. Hoje, milhares são abortadas, e outras tantas estão esmolando ou vendendo alguma coisa nos semáforos.
O negro velho era livre depois dos sessenta anos. Quantas pessoas conseguirão trabalhar ou terão um emprego estável até os sessenta e cinco anos para se aposentarem com um mísero salário mínimo?
Agora, idosos de todas as raças e de todos os credos estão abandonados nas ruas ou jogados em asilos, condenados a serem para sempre os escravos da solidão. 
No quilombo dos Palmares o líder Zumbi deu a própria vida para acolher e defender seus irmãos. Agora os escravos do sistema andam sem rumo como verdadeiros zumbis. 
Os nossos “líderes”, na sua grande maioria, defendem apenas seus interesses e lutam somente para se manterem no poder e subjugar os escravos que os sustentam.
Este preconceito hediondo que está ganhando espaço nesse país sem governo não é somente contra as pessoas negras. É também contra as pessoas pobres de todas as raças, que junto com os negros e negras sofrem na carne e na alma o abandono dos governantes e das elites que não querem entender que todos somos imagens e semelhança de Deus.
Ultimamente está ficando corriqueiro ouvirmos notícias de espancamento e assassinato de pessoas brancas e negras, pobres. E infelizmente nos últimos anos aumentou muito os noticiários de racismo e preconceito contra pessoas ricas e celebridades mortas por milicianos bandidos ou por policiais, como a vereadora Marielli no Rio de Janeiro
Será que as pessoas de bem não percebem que estamos sendo dominados pelas pessoas violentas e racistas que sentindo-se protegidas estão agredindo as outras, que mesmo diante de tanta violência ainda falam de paz?
Cem anos da Lei Áurea. Que tinha tudo para brilhar. Cem anos que a palavra “escravo” deixou de ser privilégio dos negros e passou a pertencer a todos marginalizados e explorados por empresários e políticos ladrões acobertados por uma sociedade elitista e perversa.
Realmente os negros têm muitos motivos para comemorarem nesta data porque a partir da abolição igualaram-se a todas as raças.
Os negros ricos continuam livres, e os pobres de todas as raças continuam escravos como a maioria dos miseráveis de qualquer lugar do mundo.
É uma pena, tínhamos tudo para sermos um país de primeiro mundo onde todos pudéssemos desfrutar das belezas naturais, mas a podridão da nossa política e da nossa justiça, com raríssimas exceções, impedem que isso se concretize.
É urgente que lutemos com todas nossas forças para banirmos os preconceitos. e tirarmos esta triste mancha que cobre nosso país.
É uma pena, tínhamos tudo para sermos um país de primeiro mundo onde todos pudéssemos desfrutar das belezas naturais e da alegria do nosso povo. Mas a podridão da nossa política e da nossa justiça, com raríssimas exceções, impedem que isso se concretize.


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