26 de ago de 2016

CHEIRO DE POBRE

Publiquei este texto no dia 11/01/2006 no USINA DE LETRAS.
Com toda sinceridade, alguma coisa mudou nestes mais de dez anos?



Em relação à foto e comentário abaixo, sei que existem belas e raríssimas exceções que exercem sua função com dignidade e responsabilidade.

Resultado de imagem para cheiro de pobre
Os Assistentes Sociais de hoje têm coragem de entrar aqui?

Fui chamado a participar de uma reunião para falar de assistência social, e para minha surpresa, era a realização de um pomposo Fórum de Assistência Social. 
Olhando no rosto, nas roupas e na pose das recepcionistas, percebi que quem precisa de assistência é a própria “Assistência Social”, que a maioria dos que estão no poder pensam que praticam, não sabem ou não querem praticar. 
A ostentação. 
O luxo. 
O puxa-saquismo. 
A falta de humildade. 
O excesso de formalismo, e o número excessivo de cabos eleitorais, engessam qualquer iniciativa de se falar e praticar uma assistência social digna e sem esmola, onde a exploração política nunca deveria ser o tema da conversa do dia seguinte. 
Para quem já perdeu a dignidade, 
Por ser pobre. 
Ou por estar velho demais para lutar. 
Por ter nascido no país onde a corrupção é passada de geração a geração, ensinando que o dinheiro e o poder são mais importantes que o amor. 
A maioria dos que promovem, 
Que estão no comando, 
Que compõem a mesa, 
Que tem voz. 
Nunca sentiram na pele a dor pela falta de um médico, e nunca viram um parente morrer por falta de medicamento, sempre em falta no pronto atendimento ou no hospital.
Solidariedade... 
De um assistente social que só assiste dentro de uma sala com ar condicionado, e que nunca entrou em um asilo ou em um barraco de um pobre. 
A maioria dos “delegados” do Fórum Social ocupam cargos, com e sem merecimento e competência, acham que praticam assistência social, sem nunca terem entrado em uma favela a não ser para pedir voto para o sacana que o empregou.
Sem nunca ter entrado em um hospital público. 
Sem nunca ter frequentado fila de um posto de saúde, nem mesmo para ver como são tratadas as pessoas doentes que vão ali em busca de socorro.
Sem nunca ter ficando esperando meses, com a vida por um fio, simplesmente porque na prateleira do Almoxarifado está faltando um fio cirúrgico que custa menos de dez reais. 
Olhando no semblante alegre, e na roupa de domingo dos delegados que nada delegam, que são subordinados e decidem em cima do que já está decidido. 
Vejo-me a pensar... 
Quem nunca frequentou ambiente de pobre e nunca entrou em um barraco, não pode falar de assistência social. É preciso ter cheiro de pobre, ou simplesmente, ser um pouco franciscano, que mesmo tendo posses passou sua vida tentando erradicar a pobreza. 
As frutas que enfeitavam as mesas do ambiente, nunca aparecem para causar aquele brilho de satisfação nos olhinhos dos inocentes que residem em barracos que nem mesa tem. 
O café servido aos puxa-sacos, falta todos os dias onde a fome e a incerteza do que comer amanhã é o pesadelo constante. 
Na periferia a luz que brilha não é dos holofotes das filmagens, mas os da polícia que reprime, como se ter nascido pobre foi ter cometido algum crime. 
Todos se levantaram para ouvir o Hino Nacional, só eu fiquei sentado, não por desrespeito ao país. Simplesmente em solidariedade aos milhares de seres humanos que não querem viver de esmola, mas mesmo assim, são massacrados por uma “Assistência Social” elitizada, que os vislumbram da janela dos escritórios, no aconchego das poltronas e do ar condicionado.
Deveria ser proibido tocar o Hino Nacional nas solenidades onde a ostentação e a falta de compromisso com os que sofrem, é sem dúvida a marca registrada. 
Ouvi o hino e saí! 


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