16 de jun de 2016

QUEM AMA ENXERGA O OUTRO



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É ASSIM QUE O SER HUMANO É TRATADO.

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O MUNDO PRECISA DE MAIS HUMANOS
  







Escrito em 22/02/2006




















Há muito tempo não andava de ônibus, depois de passar mais de cinco anos sem ir a Belo Horizonte, nem mesmo a passeio, estou novamente indo e voltando todos os dias. Um olhar perdido no vazio, testando a paciência de quem é obrigado usar o transporte público para se locomover. Um fone de ouvido, talvez uma música suave para amenizar a espera e a sacanagem de um transporte coletivo, que iguala seres humanos aos animais a caminho da morte, no balançar de um ônibus lotado. 
De trabalhadores. 
Estudantes. 
Pessoas que procuram o abrigo de um lar, ou o desconforto de uma carteira de escola que prepara para um futuro incerto, no país das incertezas onde um cargo público qualquer e com qualquer salário é o sonho da maioria das pessoas. Dentro do ônibus, uma placa do órgão de governo que gerencia o transporte, diz: “É proibido andar na escada”; mas, ela é parte integrante do espaço para empilhar pessoas, porque o lucro abusivo das empresas precisa ser preservado mesmo não tendo nada a oferecer, a não ser um ônibus lotado, porque o lucro está acima do cidadão. 
A relação empresário do transporte e seu usuário, é uma via de mão única onde muitos são torturados e poucos lucram. Dói mais é saber que de dois em dois anos, o dinheiro arrecadado com o excesso de passageiros, vai financiar a campanha de um sacana que vai ser eleito com o voto democrático, do passageiro da agonia que não se lembrou disso na hora de votar. Que não parou para pensar no tempo em que ficou preso em um engarrafamento, com o olhar perdido e o pensamento sem rumo. 
Que vai minando a paciência 
Criando neuroses, 
Estressando 
Este preâmbulo foi escrito para mostrar o descaso com que é tratado o povo que paga impostos, para que o dinheiro seja roubado pelos políticos sacanas.
Dentro de um ônibus superlotado fica visível a indiferença que um ser humano nutre pelo outro. 
Os animais não falam, mas quando se aproximam uns dos outros, se cheiram e soltam algum som, ou fazem algum gesto para dizer: estou aqui. 
Dentro de um ônibus, duas pessoas sentam lado a lado, se roçam o tempo todo nos corredores apertados pelo balançar das rodas (espero que seja só por isso), e sequer trocam uma palavra, e às vezes até olham-se com desprezo. 
Uns dizem que é o cansaço. 
Se esta for uma verdade, deveria acontecer com mais intensidade na hora de voltar para casa. 
Mas, de manhã, nem um bom dia! 
Outros dizem que é o mau humor, então moro em uma região onde ele faz parte do cotidiano da maioria das pessoas.
Os olhares perdidos dos passageiros se cruzam a todo instante, e nenhuma reação é notada. 
Parece que estão olhando para o vazio. 
Parece que estão olhando para o desconhecido. 
Quase não se vê um sorriso. 
Raros sinais de amabilidade! 
E todos os dias em algum lugar alguém está dizendo: “somos filhos do mesmo Deus e por isso somos todos irmãos”.
Que não se olham. 
Que não se falam. 
Que escancara sua intimidade falando ao celular, incomodando quem está ao lado sem sequer se dar conta que o outro também existe. Alguns fecham os olhos, talvez para fugir de algum olhar que lhe pede para dizer alguma coisa, ou dos olhares que os incomodam. Outros dormem de verdade vencidos pelo cansaço, embalados pelo barulho do motor e pela mudez do companheiro ao lado, e a volta do trabalho torna-se monótona e demorada. Tem os que ocupam o lugar reservado às pessoas com necessidades especiais, fingem dormir para não ceder o lugar a quem tem seu direito garantido por lei. 
O doloroso é quando estes comportamentos acompanham o passageiro para dentro de sua casa, onde marido e mulher, pais e filhos se cruzam nos corredores sem um simples gesto de carinho. 
O ser humano ou o bicho homem precisa abrir-se mais para o outro, os tempos modernos e a tecnologia trouxeram máquinas que falam, para que as pessoas possam ficar em mudas. 
Precisamos urgentemente prestar atenção em quem está ao nosso lado.
Se todos ao entrarem no ônibus o fizessem com o espírito desarmado, este seria o melhor consultório de psicanálise ou psiquiátrico, porque querendo ou não, é o melhor lugar para dividir tristezas e repartir alegrias. 
Quantos relacionamentos não começaram dentro de um ônibus? 
“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. 
Afinal não foi isto que o Pai nos ensinou? 
Então, quem ama enxerga o outro.



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