26 de mai de 2012

HOLOCAUSTO SILENCIOSO IV (REPENSANDO A HANSENÍASE)


Atrás deste portal era a morada da Maldade e Ignorância dos poderosos, e era o Lar de pessoas que nunca desistiram.


Fui convidado a utilizar meu blog para mostrar as barbaridades a que foram submetidas as pessoas atingidas pela Hanseníase, e também os seus familiares.
Ainda trago na memória, quando me vejo com uns doze anos (1962), levando uma “esmola”, ou como eles diziam “donativos”, que minha mãe mandava entregar ao “leproso”, que vinha montado em seu cavalo, ou amparado em um pedaço de pau, que lhe servia de bengala.
Os pobres não tinham tanto medo dos então nominados leprosos, atualmente Pessoa Atingida ou acometida pela hanseníase, mas para a elite eles eram uma ameaça, e deveriam ficar confinados como bichos.
Assim era a Colônia Santa Isabel.
Um local totalmente cercado e com guardas armados, lembro-me até hoje, quando de carona no caminhão que levava o leite, tínhamos que esperar o guarda tirar a grossa corrente que cercava a entrada.
Pavilhões cheios de seres humanos condenados pela doença.
Eu era muito novo e ingênuo para entender.
O abandono era visível.
A doença consumia o corpo com a perda de sensibilidade, depois com as lesões dos nervos periféricos, que se juntando à saudade dos entes queridos, consumia também a alma, e a dor tornava-se insuportável para os condenados sem crimes.
Não existia medicina para pobre, mas alguns anjos disfarçados de médicos, enfermeiros (as), e outros, se empenhavam de corpo e alma, para amenizar o sofrimento e o calvário causado pela mutilação física e mental dos confinados.
Não vou citar nomes, para não cometer o pecado da omissão.
A doença agora tem cura, o preconceito mesmo disfarçado, ainda existe. 
A Colônia Santa Isabel foi apenas um dos muitos locais de isolamento que foram construídos no país.
Aqui nasceu o MORHAN (Movimento de Reintegração das Pessoas atingidas pela Hanseníase), que está discutindo com o poder público a reparação de danos causados pela política de isolamento, internação compulsória, e separação também dolorosa, que obrigavam os doentes ou suspeitos da doença se apartarem dos entes queridos. Muitos meninos e meninas foram protagonistas de estórias de horror ao serem arrancadas do seio materno, e entregues a qualquer pessoa, que muitas as escravizavam e também as obrigavam a se prostituírem.
Outros eram internados em reformatórios, preventórios, Pupileiras, Creches, famílias substitutas ou instituições irregulares, onde passavam a viver no meio de estranhos, sendo educados a socos e toda espécie de agressões.
Existem relatos inimagináveis sobre essas ocorrências. 
Até creches foram construídas para abrigar os deserdados da Hanseníase.
E o mundo todo acha que somente Hitler foi responsável pelos holocaustos.
Esta falta de humanidade fez crescer no Brasil uma geração, sem referência de família, e que até hoje, em pleno século XXI vem lutando para acabar com os transtornos psicossociais gerados pelo holocausto silencioso a que foram submetidas.
A presidenta Dilma Rousseff visitou Betim no dia 11 de maio de 2012, onde recebeu uma comissão do Morhan, que pleiteava a constituição de uma comissão interministerial, para propor critérios ao Governo Federal, para que se proceda o reconhecimento formal do poder público, dos erros cometidos contra estas pessoas, em nome da limpeza social e de uma política sanitária segregacionista.
Após esse reconhecimento, assim como fez o Presidente Lula ao atender a luta do Morhan, ao emitir uma medida provisória que originou a Lei Federal 11.520/2007, que reparou em parte, os danos cometidos pelo estado brasileiro às pessoas submetidas ao
Isolamento e Internação. Compulsória nos diversos hospitais colônias no Brasil, a
exemplo da Colônia Santa Isabel em nosso dileto município.
A luta continua.
A Hanseníase está indo embora com o processo de atenção terapêutica denominada de Poliquimioterapia, fornecida pelo Sistema Único de Saúde – SUS.
O importante é que em vida, essas pessoas recebam este pedido de desculpas por meio da chefe da nação, e que se repare ainda que em partes, este apartheid social e esse holocausto brasileiro. 
O governo precisa criar meios para evitar que aconteça tudo de novo.
Parabéns ao Morhan que vem promovendo essa luta inclusiva e cidadã. 
HANSENÍASE TEM CURA, PRECONCEITO É DOENÇA DA ALMA 

3 comentários:

  1. Olá Geraldo,

    Triste vida, triste acaso, e triste fato.
    O governo precisa concientizar mais e entender que o povo é gente assim como ele.O governo é obrigado criar meios para evitar que aconteça tudo de novo.

    Grande abraço!

    Ótima semana!

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  2. Olá, parabéns por usar teu espaço para denunciar ou relatar essas injustiças.Um abraço,
    www.gincanahanseniase2012.wordpress.com

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  3. Meu amigo este texto bem que poderia esta vinculado ao Jornal de Minas,voce fez um relato perfeito desta discriminação ainda vigente.Use cartas ao jornal envie, é preciso que mais pessoas leiam e tenham consciencia desta maldade,que bem me lembro passaram os de pulmoes lesionados, que eram colocados isolados, lembro de um em BH onde fui fazer uma visita nos anos 60,acho que Hugo Vernek.Belo trabalho que insisto deve ser circulado principalmente em BH.
    Meu abraço.
    Voc enumera com IV,quero ver os outros.

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