14 de mai de 2011

PRECONCEITO, CONTRA QUEM?

ESTE TEXTO FOI PUBLICADO EM 2005                

Cortadores de cana
Simplesmente, Trabalhadores 







Tive que tomar emprestado o texto Escravos do Nosso Tempo, para mostrar que o preconceito que insistimos dizer não existir, está enraizado em todas as camadas da sociedade brasileira; mas não é somente contra os negros, e sim contra os pobres.
Seria até mais justo dizer que não é um preconceito racial, mas um preconceito de miséria. Todos os pobres e miseráveis sofrem na carne e na alma, o abandono das elites, dos vizinhos e amigos que só aparecem na hora da desgraça, esquecendo que o dia a dia de quem é marginalizado é mais agonizante que um câncer. O mais doloroso é existir o preconceito de pobre contra pobre, daquele que gosta de puxar saco de rico, de político, e do patrão, mesmo que para isso tenha que passar por cima do próprio irmão.
Eu preciso falar dos cem anos da abolição, mas por mais que procure não consigo entender o que foi abolido. Será que querem que eu fale sobre a libertação dos negros? Eu poderia conversar com algum preto velho, que viveu ou ouviu seus pais e avós falarem sobre a degradação a qual foram submetidos nas garras dos senhores de engenho. Poderia abrir um livro que me mostraria em detalhes os sofrimentos destes nossos irmãos nas garras dos que se julgavam donos da terra e senhores da vida.
Seria muito fácil! Nunca acreditei que somente os “negros” foram escravos, sei que pessoas foram arrancadas de suas pátrias e escravizadas, simplesmente porque eram pobres e viviam na miséria, se fossem brancas, mestiças ou amarelas teriam vindo do mesmo jeito. Não foram escravizadas pela cor, mais pela condição degradante que os seus governantes lhes impunham, e que até hoje pouca coisa mudou. Como foram os negros os escravos que vieram construir nosso país, até hoje alguns idiotas cultuam preconceitos contra esta raça que muito nos ensinou, e que escreveu com o próprio sangue o seu nome nas páginas da nossa história. Conversei com um preto assalariado, pai de muitos filhos, mora em um barraco de favela e continua mais escravo do que os negros amarrados no pelourinho. A diferença é que do lado dele moram muitos brancos, também escravos do sistema. Não abri nenhum livro, abri o jornal e li em detalhes o que todos os escravos estão sofrendo nas garras de um governo “capitão do mato”, e de uma sociedade comprometida apenas com o lucro e o poder. É por isto que cada vez mais me convenço que, salvo algumas exceções, no nosso país não existe preconceito de raça.
O nosso maior e vergonhoso preconceito é contra o pobre.
Cem anos de abolição!
A senzala era um galpão grande e sujo, com portas trancadas e constantemente vigiadas; o barraco da favela é pequeno, suas portas não trancam, porque não é possível fugir da miséria, e mesmo assim, ainda é constantemente vigiado e assaltado pelos marginais ou pela polícia. Nas senzalas a comida era ruim e raramente faltava, hoje as panelas estão vazias e as pessoas passando fome, o alimento é farto, mas salário mínimo não permite que as pessoas se alimentem, o que se perde e o que se joga fora, é uma afronta a Deus e a todos nós que assistimos calados como se fosse tudo muito natural. Nos raros momentos de folga, os negros cantavam a saudade dos parentes e da sua terra, agora não existe motivo para cantar, as pessoas não foram arrancadas de seus lares, a maioria tornou-se escravo na sua própria casa, e dos seus próprios irmãos. 
Os escravos morriam porque a medicina era privilégio dos dominadores. 
Estamos vivendo uma nova forma de escravidão e os privilégios continuam. Os pobres morrem sem assistência médica porque o progresso fez a medicina evoluir apenas para os que podem pagar. Os escravos precisam dormir nas filas mendigando uma consulta, esperar meses para fazer um exame ou simplesmente consultar com um “especialista”.
Antes da abolição as crianças eram “livres” no ventre, hoje milhares são abortadas, e outras tantas perambulam livremente pelas ruas porque não possuem sequer uma senzala para acomodar seus corpinhos cansados.
Seria tão barato construir uma.
Duas...
Três...
O negro velho era livre depois dos sessenta anos, agora velhos, de todas as raças e de todos os credos, estão abandonados nas ruas, ou jogados em asilos, condenados a serem para sempre os escravos da solidão.
Quantos conseguirão trabalhar até os sessenta e cinco anos, para se aposentar com o miserável salário mínimo?
No quilombo dos Palmares, o líder Zumbi deu a própria vida para acolher e defender seus irmãos, agora os escravos do sistema andam sem rumo como verdadeiros zumbis. Os nossos líderes, na sua maioria, defendem apenas seus interesses para não perderam os altos salários, lutam somente para manter o poder e subjugar os escravos que os sustentam.
Cem anos da Lei Áurea. Que tinha tudo para brilhar.
Cem anos que a palavra “escravo” deixou de ser privilégio dos negros, e passou a pertencer a todos que são marginalizados, e explorados por empresários e políticos ladrões, acobertados por uma sociedade elitista e perversa.
Realmente os negros têm motivo para comemorar esta data, a partir da abolição igualaram-se a todas as raças, os ricos continuaram livres, os pobres continuaram escravos, como a maioria dos miseráveis de qualquer lugar do mundo.

É claro que esta data é motivo de comemoração, mas deveria ser além de tudo, motivo para uma reflexão mais profunda sobre da degradação da vida na terra, para buscarmos novos rumos para os ESCRAVOS DO NOSSO TEMPO.

Um comentário:

  1. Sim amigo reflexão perfeita, somos mais do que escravos, perfeitos refens deste sistema miseravel de exclusão social.Então amigo tão cedo teremos a libertação que se sonha.Meu abraço e bom fim de semana.

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