7 de dez de 2010

VIDAS AO AVESSO.



Ah! Como eu queria falar de alegria.
Ah! Como eu queria ver sorrisos estampados no semblante das pessoas.
Sinto-me impotente.
Sou obrigado retratar a tristeza estampada no rosto de milhares de brasileiros que viram suas vidas viradas ao avesso ao verem tudo que foi construído durante uma vida inteira sendo arrastado pelas águas ou debaixo de escombros.
Vidas...
Viradas ao avesso pela fúria da natureza.
Viradas ao avesso pela inércia do poder público.
Viradas ao avesso graças ao nepotismo e falta de compromisso da grande maioria dos políticos cujo único pensamento é aumentar sua conta bancaria e seu poder.
E roubam o sonho de quem suou e chorou lagrimas de sangue para construir algo com seu trabalho.
E roubam o ultimo suspiro de vida dos mais pobres.
Fico constrangido de escrever sobre a dor, ainda não tive experiências de dores intensas, nem na ocasião da morte dos meus pais, que foram encaradas como um fato natural e irreversível.
Não sei qual das dores é pior.
Se física ou mental.
Tenho a impressão que a dor mental é mais forte, o corpo ainda consegue se movimentar de um lado para outro, mas a dor da tristeza impede que o pensamento seja claro e homens, mulheres e crianças vagam pelas ruas como zumbis.
Sei que as câmeras de televisão, com toda a tecnologia, não consegue captar toda a dor que assola o mundo.
Elas nos mostram rostos desfigurados.
Deserdados e desgraçados que não sabem para onde ir.
Dor que assola o mundo!
O mundo, a natureza, a terra.
Se mexendo para ocupar espaços invadidos por pessoas inescrupulosas e gananciosas que só pensam no lucro.
O mundo, a natureza, a terra.
Devolvendo em dobro as agressões sofridas ao longo dos séculos, em nome do progresso.
Não quero, mas preciso relatar a tristeza.
Meus olhos começam a lacrimejar diante da miséria de muitos esfregada na minha cara.
A grande maioria dos atingidos pela tragédia, como não poderia deixar de ser, foram os pobres.
Políticos sobrevoam as áreas afetadas, alguns visitam pessoas e locais atingidos e em sua grande maioria torcem para que as tragédias aconteçam, principalmente em ano eleitoral para tirarem proveito com promessas e compra de votos.
Os acontecimentos se atropelam e tivemos que esquecer o sofrimento interno e nos mirar e sofrer junto com o povo haitiano.
Imagens duras de corpos espalhados pelo chão como lixo fedorento que ninguém quer recolher.
Ainda não sofri na pele nenhuma dor, mas não consigo ficar impassivo diante de tanto sofrimento retratado nas imagens que mostram apenas o corpo, me obrigando entrar no intimo de cada um para tentar entender como será possível assimilar tamanha tristeza e devastação de bens e de almas.
São 04.00 da manhã, hora de dormir, as imagens chocantes de abandono total inundam minha mente e me impele a escrever.
Descrever.
A dor.
O sofrimento.
Alguns aproveitadores dirão que é castigo, outros dirão que é coisa do destino ou que o mundo está acabando.
Os sobreviventes dirão que foi um milagre.
Mas eu não vi a presença de Deus no olhar vazio perdido no nada.
Talvez seja a dor que me faça escrever assim, mas não posso aceitar um Deus sentado em um trono esperando almas para colocar no céu.
Prefiro pessoas vivas lutando para construir seu paraíso.
A alegria também está de recesso e será esquecida daqui a uns dias quando o carnaval invadir a ruas das cidades.
Eu não gosto de carnaval.




Um comentário:

  1. Olá Geraldo,

    Bela crítica social e económica.
    Também não gosto de Carnaval. É muita fantasia, para ocultar realidades tão sérias e graves.
    Como Católica, espero, que um dia tudo mude.
    Mas, até lá, muita gente vai sofrendo.
    Me dizem, que o mal no mundo é obra de Satanás. Será?

    Abraços de luz.

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