10 de dez de 2010

NÃO EXISTE AUSÊNCIA DE DEUS.

ATÉ NAS TREVAS SENTIMOS A PRESENÇA DE DEUS
Sou um andarilho, minha vida é um vai-e-vem sem fim, sou visto nas favelas onde algumas pessoas me conhecem, também frequento os bairros nobres onde poucas pessoas me cumprimentam. 
Ultimamente tenho andado um tanto intrigado.
Quando estou de frente para o pôr-do-sol não consigo enxergar a beleza dos raios se escondendo aqui, para embelezar o outro lado do mundo, e na manhã seguinte, quando estou de frente com o astro rei, também não consigo vislumbrar o milagre de um novo dia.
Olho ao redor e não vejo nenhuma harmonia no balanço das árvores, talvez porque estejam de luto pela agonia que está sofrendo a nossa irmã água.
Não consigo sentir o perfume das flores dando cheiro à minha pele, inundando meu corpo com sua fragrância, que vem trazida pelo nosso irmão vento em forma de brisa.
Quando o vento bate no meu rosto não consigo esboçar nenhuma reação, mesmo sabendo que este irmão, quando está calmo, é como a pessoa amada que descobre os pontos vulneráveis do outro em uma sintonia de paz.
O que mais me preocupa é não conseguir emocionar-me com o sorriso de uma criança quando ela tem motivo para sorrir, nem sentir compaixão com seu choro quando tem motivo para chorar.
Às vezes penso que sou louco.
Gostaria de ser!
Gostaria de não sentir.
Mas como sinto tenho, certeza que não sou louco. Os loucos não sentem saudade, a falta de alguém ou de alguma coisa, não se emocionam; choram e riem ao mesmo tempo sem saber o porquê.
Outro dia, em uma das raras vezes que alguém se dispôs a dar-me atenção, falou-me que meu comportamento era causado pela ausência de Deus.
Será? 
E pode ser verdade!

Eu O procurei em todas estas coisas que não senti e não encontrei. Como não encontrei achei até que não existia, quando pensei assim descobri que esta era a minha loucura.
Não sou louco! 
Sei que as minhas emoções, alegrias e tristezas estão escondidas dentro de mim, não pela ausência de Deus, porque não foi ele que me fez ficar assim. 
Pensando bem, foi ausência sim.
Eu estava ausente de tudo.
Antes que as emoções me abandonassem procurei Deus desesperadamente em muitas pessoas, e em muitas religiões, e lá também Ele não estava. 
Então percebi que aquela pessoa ao dizer ser ausência de Deus, foi simplesmente porque nem mesmo ela conseguia encontrá-Lo, mas tentou convencer-me que estava ausente somente dentro em mim.
E abrindo os olhos percebi que esta expressão: Ausência de Deus, é fora de propósito.
Ele nunca está ausente.
Não é necessário ficar procurando, é preciso deixar se achar quando Ele procura, pois é isto que Ele faz a cada segundo da nossa vida, por isso é preciso estarmos atentos para perceber a maneira como Ele se apresenta a nós: 
No amigo que não visitamos.
Na pessoa que pede pão.
No pobre que não tem médico e nem medicamento.
No ser humano que mora na rua.
Disfarçado em pai e mãe que se doam uma vida inteira, para depois, verem seus filhos pagarem para que sejam recolhidos em um asilo.
Na figura de um filho que é abandonado, e sozinho tem que achar o caminho das pedras para não se enveredar nos atalhos do crime ou das drogas.
E assim por diante.
E assim eu fiz.
Se não sou louco posso parar em qualquer lugar, mudar o jeito de ver as coisas, lutar para ficar visível aos olhos de quem me criou, e que ainda me trata como criança de colo.
Então percebi que:
O brilho da sua luz chega com mais intensidade, naqueles que lutam para contribuir na construção de um mundo fraterno, mesmo sabendo que não vai conseguir mudá-lo, não se acomoda, faz aquilo que Deus quer de cada um: ser semente. 
Sendo assim, o milagre da vida ganha sentido e contornos de felicidade, em quem não se esconde e deixa-se levar nos braços que embala, na luz que precisa ser repassada, no brilho dos olhos e no sorriso de quem deixou-se tocar pela graça que veio do céu.
E então...
O nascer e o pôr do sol são os milagres da vida que se renova todos os dias, porque as imagens refletidas nunca se repetem, cada amanhecer e anoitecer trazem uma beleza diferente aos olhos de quem contempla.
O perfume das diversas flores e o cheiro da relva, mesmo sentido falta da irmã água, com raízes fincadas na mesma irmã terra, inunda o ar e a nossa alma com odores divinos, e o cheiro experimentado parece dar-nos uma ideia do perfume dos deuses.
O sorriso de uma criança nascida em berço de ouro não é diferente do sorriso dos filhos dos pobres, mas o é o exemplo máximo da alegria que Deus sente por nos ter criado à sua imagem e semelhança.
E o pôr-do-sol vem fechar o dia com chave e ouro, espalhando seus raios coloridos, para enfeitar o mundo que foi criado para todos, mas que infelizmente, muitos ainda não perceberam que precisamos cuidar do que ainda existe, recuperar o que destruímos do espolio que o Criador do universo nos deixou de herança, para uso e fruto, e que um dia vai querer de volta.
Não sou louco.
Não existe ausência de Deus.
Ele é sempre onipresente,
Não precisamos procurá-Lo.
Ele nos acha todas as vezes que queremos ser encontrados.
Basta querermos estar visíveis ao Seu olhar e dispostos a caminhar na sua luz


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