22 de nov de 2010

MUDANDO DE FAIXA..

Este texto foi escrito pela aniversariante ANA ZÉLIA, que Deus a abençõe e proteja por muitos e muitos anos.


Meu Deus!
Eu consegui!
Ainda não, falta pouco para ultrapassar o 6.6 é questão de horas.
Amanhã já estarei no 6.7 uma história cheia de altos e baixos, de quedas, de lágrimas, de vitórias divididas, odiadas, muitas delas custaram lágrimas, sangue, ossos quebrados, lágrimas, lágrimas.
Pertenço ao signo da transformação que tem como símbolo a Águia, altaneira, que chega às alturas, que muda de pele, e a Cobra que rasteja e mata enroscando a presa, que se defende parecendo ser maior que seu tamanho, que possui veneno mortal na cauda. Sou de Escorpião, o pequenino ser que por medo vive entocado longe das badalações, se ameaçado enfrenta o inimigo com altivez, seu ferrão mortal é no rabo, não ataca de frente, se defende apenas...
Neste dia, nesta data, nesta hora são quase 18h me sentei frente a este idiota que ainda me obedece, onde ainda sinto o pulsar forte da mente, dos dedos, tentando abrir um relicário amarelado pelo tempo.
Mudei tanto que nem reconheço a moça que enlouquecia quem a olhasse, que perdeu o brilho dos olhos, enrugou a pele do rosto.
Do corpo todo.
Se curva ao tempo, espera não chegar ao chão, mas já perde a força de se manter como os soldados, firme.
Mudar o tempo, o corpo, fazer plástica, que mudaria minha alma, meu comportamento, passei a vida inteira pedindo a Deus me fazer esquecer o passado, sofrimentos, ingratidões, traições, cheguei a perder tato e mente quando fui covardemente injustiçada dentro de um Poder, por pessoas que não me deram o direito de defesa, nem ser ouvida. Resistir foi uma graça grande, infiltrações nos pulsos, técnicas de teatro, silabação até que a memória retornasse.
Sobrevivi, pensei pedir a Deus força para perdoar estas pessoas, mas foi muito forte o mal que fizeram, coloquei nas mãos Dele para que a justiça fosse feita, não voltei a advogar, defender os pobres e oprimidos, já quase nem entro no prédio onde funciona o que mais amei, sonhei na vida.
Sou de um signo forte, me considero índia pura de uma raça dura, aprendi a enfrentar os obstáculos, a enfrentar as tempestades mesmo morrendo de medo dos trovões e dos relâmpagos.
Sou forte, aqui meu mérito, não temo a morte, temo o sofrimento da dor, do medo, a morte é causa natural, nem Deus escapou, precisamos todos os dias nos preparar pra ela, que covardemente não avisa quando vem, quando chega.
Tenho medo de cirurgias, de médicos que cansados de tanta violência atendem os pacientes como objetos, esquecem o ser humano.
Cheguei na idade das tentativas: tentar andar de porte erguido, tentar não pedir favores, tentar ficar de pé nos coletivos lotados, de carregar o peso das compras de mercado, de agüentar firme, não chorar quando agredida por uma cara fechada, palavras ríspidas, tratamento de filhos, tentar manter a voz que me levou a representar o Amazonas fora do Estado com o Coral Universitário.
Tentar manter o equilíbrio no palco declamando ou encenando uma peça, um poema, não esquecer os remédios que passaram a fazer parte da minha vida.
Sou forte, já não choro por amor, é passado e não lembrado, os homens que amei são meus amigos, conto nos dedos, não chegam a cinco, mas são muito queridos.
Sou forte, posso chorar pela morte covarde de um gato envenenado por maldade, e odiar quem me perturba com barulhos infindos, tirando o direito único de dormir sossegada.
É a perdição da juventude transviada, sem pai, sem mãe, sem governo, onde sexo e bebidas são o forte, noites inteiras perturbando o sossego a ordem.
Finda o 6.6 e começa o 6.7 que eu tenha força para chegar aos noventa, aos cem anos, o importante é continuar tentando, fechando os ouvidos com algodão, fingindo de morta pra me manter viva, não falar pra não se aborrecer, sair de casa todos os dias pra olhar as pessoas, as lojas, ver a cidade e não matar a saudade porque saudade não se mata, guarda para sempre.


Manaus, 15 de novembro de 2010.
Ana Zélia

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