2 de set de 2010

A LUZ QUE NÃO QUEIMA


Moro a quarenta minutos de Belo Horizonte, a capital das Minas Gerais, não gosto de cidade grande, só visito a capital quando é imprescindível resolver algum problema, ou fazer alguma coisa que não consigo na minha cidade. Hoje foi um dia destes, andando pelas ruas, nove horas da manhã com um sol de primavera bronzeando o corpo de quem mora onde não tem praia, fiquei observando os donos do mundo, ou os do mundo sem dono, dormindo debaixo das marquises.
Exatamente como acontece em todas as cidades do nosso país e em muitos lugares do mundo. 
Homens, mulheres e crianças, drogados, bêbados ou simplesmente abandonados. 
Pela família. 
Pelas igrejas. 
Pelo sistema. 
Ou por eles mesmos. 
Dormindo o sono dos justos, como se estivesse em um hotel sem estrelas ou de muitas estrelas que enfeitam sua noite, não se importando com o burburinho de pessoas e veículos, no vai e vem de uma cidade que é a terceira maior do país. O sol bate forte no seu rosto, queimando sua pele acostumada com as agruras da natureza. 
Mesmo assim não acordam. 
Parece que suas pernas estão dizendo para não acordar, porque estão pesadas demais cansadas de andar para muitos lugares ou para lugar nenhum. Parece que suas mãos estão dizendo para não acordar, porque estão cansadas de se estenderem para o passante e sempre serem recolhidas vazias. Parece que seu estomago está pedindo para não acordar, porque está cansado de sentir fome, e quando bate aquela vontade danada de comer alguma coisa, tem que se alimentar com a esmola ou com o resto que não serve nem para o cão sarnento que também mora na rua.
O coração parece lhe dizer para não acordar, porque está cansado de bater sem nenhum motivo, e quando se bate para o nada é nisto que a vida se transforma, um emaranhado de pensamentos sem sentindo, misturando as ideias, muitas vezes nem sabendo quem é, de onde veio e para onde vai.  
O subconsciente também está implorando ao celebro, que não acorde para isto que chama de vida, e que alguns chamam de liberdade. 
Parece que o corpo inteiro numa sintonia de entrega, está pedindo à alma para abandonar o corpo, evitando que ele acorde, porque sem a alma o sol já não queima, a indiferença já não machuca e a fome deixa de ser um fantasma. 
As horas vão passando e aumentando o calor, o barulho do vai-e-vem vai ficando cada vez mais alto e os olhos começam a piscar em mais um despertar de dor. 
Sem cama. 
Sem família. 
Sem um simples café da manhã. 
Sem amanhã! 
Com “vizinhos” passando apressados preocupados com suas vidas. 
É preciso acordar!
A gente não tem o poder de dispor da vida ao nosso bel prazer. 
É claro que a vida deste ser humano é uma verdadeira caixa de surpresas, mas muitos milagres da vida real já tiraram pessoas desta situação, e como num passe de mágica, ou realmente em uma perfeita sintonia entre o profano e o sagrado, a fé de acreditar naquilo que não vê, materializou o milagre que transformou a desgraça em felicidade. E constantemente ouvimos relatos de pessoas que, contra todas incertezas e sem o mínimo de chance de ver sua vida mudar, humildemente conversando com o Criador, deixou-se tocar e se levar pelo Espírito Santo que liberta, e sentindo-se tocado pela luz que não queima como a do sol, hoje leva uma vida diferente daquela que pensava ser o seu jeito de viver para sempre
O seu endereço não é mais; ignorado, ou debaixo da marquise tal. 
É preciso que a Luz que não queima continue derramando seu espírito para que em algum lugar e em algum momento mais alguém seja atingido por este raio, e algo de concreto possa ser feito, para que as ruas das grandes cidades deixem de ser depósito de lixo de homens, mulheres e crianças imagens e semelhanças de Deus. Não precisamos esperar os milagres acontecerem, se todos se derem as mãos em uma união fraterna para instalar o reino de Deus novamente neste mundo, muitos de nós poderemos ser os intermediários destes milagres.
                                                            


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