17 de set de 2010

CABEÇA ZERO QUILOMETRO

Falar de desencontros sem mencionar o das crianças seria a mesma coisa que falar sobre o zoológico sem mencionar os bichos.
É por isto que vou falar um pouco sobre estas criaturinhas frágeis, muitas vezes abandonadas porque seus pais são pobres ou ricos demais.
É preciso ser pai ou mãe para sentir a sensação de pegar um filho no colo, abraçar aquele corpinho meigo e frágil dizendo:
Aqui está um pedaço da minha vida, você é o feliz resultado de um amor que começou forte e que continuará, porque você é o elo entre a vida e o amor.
Os que ainda não receberam o dom de gerar filhos, quando pegam uma criança no colo sentem que ali existe um tipo de vida diferente, que fala sem saber falar.
Quando brincamos com uma criança somos invadidos por sua inocência, e podemos notar que Deus colocou no seu sorriso o máximo da perfeição criadora.
É por isto que não consigo admitir uma criança abandonada, principalmente nos colos de uma babá, simplesmente porque os compromissos sociais de seus pais nunca podem ser adiados.
Às vezes uma criança pobre é mais feliz porque apesar da fome, tem liberdade, não fica trancada em um apartamento ou cercada dentro de altos muros, alienada por brinquedos eletrônicos.
Como é fácil e difícil ser criança; é fácil porque ainda não é chegada a hora da preocupação, é difícil porque o progresso que estamos alcançando e a luta pela sobrevivência as coloca em segundo plano, a fome, o frio e a falta de carinho as estão tornando adultas cedo demais.
Continuando assim em um futuro muito próximo os garotos não descobrirão que ser criança é andar descalço, ficar com as calças furadas na bunda sem se preocuparem com os olhares dos outros.
É muito triste olharmos para nossas crianças e vermos que estão desconfiadas, proferindo palavrões, não obedecendo aos mais velhos e perdendo a inocência que lhes é peculiar.
Elas estão precisando trabalhar muito cedo.
Eu as vi anunciando seu produto
Eu as vi mendigando nos semáforos.
Eu as vi se prostituindo a troco de míseros centavos.
Eu as vi abandonadas e jogadas para fora de casa pelos próprios "pais".
Se os comportamentos não mudarem, não saberão nunca que ser criança é entrar na conversa dos adultos, levar umas palmadas e refeito o susto voltar a dar a sua opinião.
Não saberão que é necessário matar gambá no quintal do vizinho e fazer gestos imorais sem saber o significado.
Se este "progresso" não parar, elas não aprenderão brincar de casinha, fazer comida de mentirinha, ser médico ou enfermeira, ser bandido ou mocinho e batizar a boneca, não conhecerão a amarelinha, bentialtas, cirandinha, é pena, mas continuando assim nunca mais acharão o "Nego Fugido"
Maio de 2002 os jornais e televisão trouxeram manchetes, onde crianças de doze anos estão bebendo cachaça e se tornando alcoólatras.
Onde estão os pais?
Onde estão as autoridades que passeiam pelos shopings e assistem crianças bebendo nas praças de alimentação e não prendem o sacana que vende?
É preciso denunciar?
O quê?
Está aí para todo mundo.
Ver..
Gonha!


OBS. Eu sou do tempo em que ainda existiam quintais e este texto foi escrito há mais de 15 anos, hoje relendo sei que poderia tirar e acrescentar alguma coisa, mas quero deixar esta tarefa para quem se dar ao trabalho de ler.
Gostaria apenas de lembrar uma frase que ouvi de um mecânico da empresa onde trabalhava.
“Quando o filho da gente nasce recebemos uma cabeça zero quilometro, mais de noventa por cento do que for colocado nela é culpa ou mérito nosso”.

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