19 de ago de 2010

SÓ PRESERVA QUEM SENTE SAUDADE

Publiquei esse texto em 2006, agora o RIO BETIM morreu definitivamente, e o São Francisco continua sua agonia em seu leito de morte.


NASCENTE DO SÃO FRANCISCO

















Toda manhã faço um trajeto de meia hora para pegar o ônibus que me leva ao trabalho, não é por falta de condução e sim pelo prazer de caminhar. 
A pista de caminhada, muito bonita feita pelo homem, margeando um rio muito feio, cuja feiura também foi causada pelo homem. 
Apesar de tudo, ainda é um bom lugar onde centenas de pessoas caminham para manterem o corpo em forma. 
Todos elogiam a pista. 
Poucos prestam atenção no leito profanado de um rio que insiste em ser referência: “A pista é ao lado do rio Betim. 
Eu não sei como alguém consegue continuar usando o rio como referência.
As pessoas conseguiram trocar o rio, pela pista que é realmente muito bonita. 
O rio também já foi!
Será que todos já nascem sabendo como agredir a natureza? 
A minha cidade tem coleta seletiva do lixo. 
Muitos não separam. 
Outros colocam o lixo antes do horário e fora do dia de coleta. 
E ele se espalha. 
Como um lixo pode se espalhar sozinho? 
Ele é espalhado pelas pessoas que que consomem alimentos e jogam as embalagens nas ruas. Espalhado pelos pobres, que se igualando aos cães sarnentos, buscam nas lixeiras alguma coisa para matar sua fome. 
É muito difícil mostrar para a maioria das pessoas, principalmente aos mais jovens, que é preciso preservar a obra prima que foi concebida quando Deus olhou e “Viu que tudo era bom”. 
Eles não sentem saudade. 
Eles não conheceram um rio de água cristalina. 
Os meus filhos nunca “mataram gambá” em nenhum quintal, acho até que essa expressão não existe mais. Nunca comeram um pêssego ou um caqui apanhado direto do pé, e de preferência no quintal do vizinho. Não sabem o que é gabiroba, cagueitera, araçá, gabiroba e tantas outras frutas comuns nos lugares agora habitados 
Nunca viram um moinho movido a água. 
As fotos só falam para quem viveu na época do seu clique. Mostrar a foto de um ex-rio, uma ex-mata, um ex-animal, não consegue provocar sentimento de revolta, o máximo que alguém vai dizer é: Era muito bonito. 
E era! 
Só preserva quem sente saudade. 
Felizes nós acima dos cinquenta, que vamos morrer levando na lembrança um pouco da beleza primitiva do que Deus criou para todos. Infelizes nós que vamos morrer deixando como herança para as futuras gerações uma natureza morta, simbolizada apenas por um quadro na parede ou um filme guardado em uma gaveta. Nós, da geração que está indo embora, não fomos bons professores. Quando não ajudamos diretamente na destruição, também não lutamos e nunca exigimos respeito à natureza. Ecologia era palavra proibida, e não soubemos captar sua essência para repassar aos nossos filhos. 
E quando formos questionados pelo Artista maior, o que diremos? 
Foi preciso desmatar para construir casas. 
Foi preciso desmatar para construir móveis. 
Foi preciso desmatar para construir fábricas e dar empregos. 
Foi preciso desmatar as margens e desviar o rio para construir estradas, pontes e usinas
Tudo foi concebido para o homem, e tudo foi destruído pelo homem.
Ninguém terá coragem de dizer: tudo foi destruído pela ganância, tudo foi destruído pelo maldito dinheiro que desde a criação, mesmo com outro nome, já corrompia a mente do ser humano. 
Ainda dá tempo... 
Se os jovens quiserem consertar o que estragamos, e reconstruir o mundo a partir da lição que não tiveram. Se quiserem lutar pela ecologia e esquecerem a lógica da concorrência frenética por status e dinheiro, a vida na terra ainda pode durar alguns séculos, do contrário, quando também chegarem à velhice, todo o conhecimento adquirido, toda a tecnologia alcançada e toda fortuna acumulada não serão capazes de encher um só copo de água. 
Que o Deus que nos criou para cuidar de toda a sua criação, perdoe-nos, e que as futuras gerações possam renovar a aliança com este mesmo Deus.
Como fez Francisco de Assis, que abandonou sua vida de riqueza para cuidar dos pobres e ser o maior defensor da natureza de todos os tempos.

Como fez Chico Mendes que deu a vida para defender o que era de todos 

Um comentário:

  1. Concordo contigo. Precisamos proteger a água de nossa própria inconsciência.
    Abraços.
    Ana Rocha
    Líder de Processos da Embasa (Empresa Baiana de Águas e Saneamento Básico do Estado da Bahia)

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