16 de ago de 2010

RADIOGRAFIA DE UM HOSPITAL

Escrevi este texto em 2005. Alguma coisa mudou?

Um grito de dor de um adulto em uma enfermaria sempre lotada, o choro de uma criança no leito da pediatria ou dentro de uma incubadora da neonatologia.
Um amontoado de filhos de Deus numa correria dos infernos na recepção do pronto socorro. 
Um corpo inerte no Centro de Tratamento Intensivo.
Um bloco cirúrgico funcionando precariamente fazendo apenas cirurgias de emergência que se transformam em morte por falta de um fio cirúrgico apropriado, e a tentativa desesperada de salvar uma vida costurando com um fio qualquer.
Cirurgias eletivas sendo canceladas
Eletivas.
Quanto tempo um tumor pode esperar dentro da próstata antes de se tornar um câncer?
Quanto tempo um caroço pode ficar pulando de um lado para outro da mama até que o seio seja retirado?
O corpo precisa adaptar-se à burocracia que remarca para daqui a seis meses.
Quanto tempo a dor física e emocional pode e deve ser suportada?
E as cirurgias são eletivas...
Uma infecção hospitalar que insiste em alojar-se até nos corredores onde existe um grito parado no ar.
Um profissional médico ou enfermeiro comprometido e sem ação.
Pela falta de material.
Pela falta de medicamento.
Pela falta de valorização, promoção e aperfeiçoamento, fazendo que muitos acomodem-se e se transformem no “funcionário” que está na boca do povo.
Pela falta de compromisso de políticos sem escrúpulos.
Pela falta de tudo!
Um corpo inerte na mesa fria de um necrotério.
Quanto tempo será que aguentou sem uma cânula para respirar?
Quanto tempo suportou e quanta dor sentiu sem o medicamento que corta a febre, que controla a pressão, que aplaca a dor, mas que insiste em faltar nas prateleiras dos almoxarifados dos hospitais que atendem os donos dos títulos de eleitores? 
Os pobres.
Os dependentes do SUS.
SISTEMA ÚNICO DA SACANAGEM.
Quanto choro e sofrimento foi preciso, quantas agulhadas desnecessárias e quantas vidas abortadas pela falta de um bendito ou maldito cateter epicutâneo?
Que é considerado supérfluo.
E muito caro.
Pelos “gestores” de suprimento da “saúde”.
Que são pais e internam seus filhos em hospitais particulares.
Que deixam o pedido de material e de medicamento fazer aniversário em uma gaveta. 
Um corpo inerte na mesa fria do necrotério...
Gritos de dor.
Filhos órfãos.
Viúvas e viúvos.
Pais desesperados.
Um atestado de óbito dizendo que foi falência múltipla de órgãos.
Ah! 
Se os médicos não tivessem que ver a vida se esvaindo em suas mãos e a morte fora da hora com seu manto macabro, sorrindo em sua mente, perturbando o seu sono e mostrando-lhes a todo o momento a cena de uma gaveta ou de uma prateleira vazia, onde a presença do material e do medicamento deveria ser constante.
Ah! 
Se os médicos pudessem colocar no atestado de óbito a causa real da morte.
Os hospitais teriam que fechar.
Porque os almoxarifados não poderiam ficar jogados às traças como agora, e o dinheiro cobrado nos impostos e roubado escandalosamente teria que ser usado para cuidar da saúde da imagem e semelhança de Deus: O SER HUMANO.
O POVO PRECISA ACORDAR.
O triste é que isto não é privilégio de uma cidade.
É O RETRATO FALADO DOS HOSPITAIS PÚBLICOS DO PAÍS.
Mas algumas prefeituras de cidades polos com grande arrecadação de impostos, poderiam investir menos em obras faraônicas para enganar os eleitores, e usar o dinheiro do povo para comprar remédios e material médico hospitalar para salvar vidas.
O POVO PRECISA ACORDAR.
E na hora da eleição lembrar das cirurgias canceladas.
Do mau atendimento nos postos de saúde.
Lembrar-se de quem não pôde votar porque morreu por falta de um medicamento. 
E finalmente se perguntar: quantas vezes o político que está no poder entrou em um hospital público.


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